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Lembranças

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 17/02/2017-22:27:14 Atualizado em 18/02/2017-00:26:44

O que seria da gente sem as lembranças.
Sábado foi um dia de lembranças. Boas lembranças.
Era dia de futebol no Décio Vitta. Até aí nada diferente do que acontece ininterruptamente desde 1979 e onde eu costumo ir há quase 30 anos.
Mas fazia muito tempo que eu não fazia aquele tradicional roteiro, tão corriqueiro nos anos 90. Os cenários mudam, os personagens mudam bastante, mas o roteiro foi, na essência, o mesmo.
Nos anos 90, dificilmente perdia um jogo no Décio Vitta. Saía cedo de casa, duas horas antes do jogo, quase sempre com meu pai. Quando era jogo grande, primeiro checava qual sentido da Carmine Feola seria interrompido. Minha mãe se encarregava de levar eu e meu pai de carro e deixar algumas quadras longe da bagunça. Sempre com aquele medo característico de mãe.
Sábado foi a vez da minha mulher e meu filho me deixarem. Não tinha sentido interrompido e o movimento não se assemelhava a um dia de jogo. Pelo menos de jogos daqueles anos 90. Faltavam só 15 minutos para o jogo começar. Desci a duas quadras do estádio, com aquela preocupação de não chegar com o carro perto da muvuca com minha mulher e meu filho. Não precisava, é óbvio, mas acho que essa parte do roteiro já está meio que impregnada na minha cabeça.
Nos anos 90, geralmente comprava ingresso antecipado. Evitava aquela dificuldade toda na frente da bilheteria.
Sábado, deixei para comprar na hora. Oito torcedores na minha frente e um bilheteiro. Sol forte, mas tudo rapidinho. Não me lembro a última vez que havia comprado ingresso na bilheteria do Décio Vitta (trabalhando em jornal, a gente tem entrada livre).
Desci a rampa e me lembrei de quantas vezes já havia feito isso. Mato alto pra todo lugar? Qual o problema se cansei de descer aquela rampa quando nem asfalto lá tinha.
O Rio Branco, com bom senso, liberou as cativas para quem lá quisesse sentar. Lá tem encosto e sombra, e fica no centro do gramado, o melhor lugar pra ver o jogo. Não tinha porque ficar no sol e sem encosto. Mas não teve como não lembrar de quantas vezes eu tomei chuva e sol naquela arquibancada descoberta, muitas vezes atrás do gol quando já não era mais possível sentar perto da grade que separa a arquibancada da cativa, em busca de uma visão melhor.
Era uma delícia.
Meu pai, sistemático, quando algumas nuvens se avizinhavam já antes de sair de casa, providenciava duas capas de chuva (que obviamente haviam sido compradas no último jogo com chuva) e guardava a carteira com documentos e dinheiro (para o amendoim) em um saquinho plástico. Quando estava sol, nunca dispensava o boné. Já era careca. A mim cabia levar o radinho, desde que a tal da chuva não se avizinhasse.
Sábado, sentei no mesmo lugar que estava nos 5 a 2 sobre o Palmeiras (já era jornalista em 2000 e sentava na cativa). Não tinha o homem do amendoim andando e soltando aquelas rimas que todos já conheciam de cor, mas que na voz dele ainda provocava risos. Dava para ir no banheiro a hora que necessário fosse e voltar a sentar exatamente no mesmo lugar.
Não era bem assim antigamente.
À minha frente, Luis Carlos, ex-jogador do AEC e do Rio Branco. Ao seu lado, o empresário Berto Faé, diretor do clube nos anos 80, que levou o neto ao estádio.
Boas histórias não faltaram para voltar ainda mais no tempo. Ilzo Neri, Dau, Fred Smania Boca, Candinho, jogador com hemorroida, construção do muro ao redor do estádio (Berto Faé lembra que estava junto a Neco Mendes quando todo o material chegou para começar a substituir o alambrado que separava o campo da torcida).
Tudo cooperou para o ar nostálgico.
Gramado ruim e futebol de Série A-3 passaram quase que despercebidos.
Afinal, era muita boa lembrança. Afinal, também, o Rio Branco venceu um rival tradicional, o Marília (como eles deram dor de cabeça em 90...).
No estádio, pairava o sentimento de que o caminho para a reconstrução é longo, mas quem sabe, daqui a 30 anos, possamos ter boas lembranças deste que talvez seja o início de mais um ressurgimento do Rio Branco.
Afinal, o que seria da gente sem as lembranças.