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Tempo perdido

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 20/01/2017-00:16:45 Atualizado em 20/01/2017-00:17:23

Quando alguém diz "queria ter mais tempo", ou uma das variações fantasiosas da frase, como "queria que o dia tivesse 30 horas", etc., sinto um déjá vu revestido de verossimilhança num degrau ainda mais alto do que aquele onde os déjá vus costumam depositar toda verossimilhança que lhes é peculiar.
Não sei exatamente quando, mas o tempo, ou melhor, a falta de tempo, tornou-se nosso pior inimigo e, paradoxalmente, o melhor aliado.
Gostaria de poder se exercitar mais? Claro, quem é que vive imóvel sem um punhado de culpa nesta era do culto à saúde? Intenção há, mas...que horas? Filhos, trabalho (ou procurar trabalho), faculdade, esposa (o), cozinhar; que pena, impossível.
Eis uma situação em que o tempo age como simulacro de inimigo - ao nos impedir de cuidar da própria saúde - e se revela grande aliado (por nos livrar da chatice repetitiva da academia).
E aqueles amigos sumidos de quem a saudade sentida (realmente sentida) você teme que dure apenas até o fim da desgastada e segura frase "vamos marcar aquela cerveja"? Nessa vida corrida (olha o tempo, aliado e inimigo), a solução é "a gente tenta encaixar".
Estudar para concurso, aprender aquela coisa que você sempre quis (mas não faz a menor ideia se vai gostar)? Idem. A falta de tempo é implacável.
Nesta crise do tempo, como ocorre em meio à escassez de qualquer recurso, é inevitável que surjam gestores para (perdão pelo termo) otimizar sua utilização. Foco, foco absoluto e irrestrito, dizem, é o segredo da excelência, o caminho para nos livrarmos com alguma eficiência das tarefas que não queremos fazer, para que sobre tempo e, enfim, chafurdemos no mar de escolhas. Distrações? O próprio capiroto - só senhores da autoajuda para querer banir as saborosas distrações dessa vida tão (é claro) corrida. Mas a coisa do foco irrestrito e absoluto funciona no discurso, e só no discurso, então continuamos todos sem tempo.
Chego a ter pena de quem, por um motivo ou outro, não pode usar a justificativa cronológica. Que dirão aos outros, e o pior, a si mesmos? Não faço por preguiça, apenas e totalmente por preguiça? Por incapacidade? Ou ainda mais medonho: não tem nada que eu queira fazer? Poucos são assim, ainda bem - talvez quase todos adolescentes.
O homem médio é aquele sem tempo. Ou melhor, aquele que encontra na inexistência de tempo seu aliado e inimigo.
A falta de tempo torna-se assunto, aproxima, cria identificação. Donas de casa veem na TV do consultório médico a Letícia Spiller, da mesma idade que elas, e dizem: "Mas ela tem tempo pra malhar, né."
Ajuda, obstáculo, o tempo tem todo um quê de justificativa. Não sem motivo precisamos de uma grande muleta.
Arrumar tempo, como sugerem aqueles que conseguiram, envolve toda uma mudança de hábitos, e não há nada de mais desconfortável do que imaginar uma alteração de rotina. Fazer coisas novas, só pensar em fazer coisas novas, mesmo "velhas coisas novas", soa como patinar no gelo para quem nunca sequer usou patins de rodinhas.
Falta-nos tempo ou disposição de arranjá-lo?
Lembro quando decidi que precisava ler mais, muito mais, e necessitava de...(você sabe). A solução foi deixar de assistir TV, um hábito a que estava tão acostumado ao chegar em casa tarde da noite, após sair do jornal, que não conseguia me imaginar sem ele. Funcionou. Não assisto mais TV (exceto Discovery Kids e Gloob, pois como todos pais e mães sabem, não basta deixar a TV ligada e pegar um livro, é necessário assistir com os pequenos). Na verdade, deixei de assistir a qualquer coisa, não só TV. Tudo que sei sobre Game of Thrones é que Jon Snow morreu e ressurgiu, e talvez tenha morrido de novo.
Fazer escolhas, arranjar tempo, é quase tão difícil quanto largar o cigarro. Mais difícil ainda é olhar para trás e ver tanto tempo escorrido em atividades (?) que não nos orgulhamos de fazer, mas que fizemos e fazemos sabe-se lá por que.
Ao contrário de fumar, não voltei a assistir TV. Dizem que não tenho perdido nada.