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Bandido e cadeia

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do TODODIA - 07/01/2017-00:11:33 Atualizado em 07/01/2017-00:12:20

Deve ter havido um dia em que as bobagens se diziam apenas em círculos fechados. Hoje, a coisa toda é mesmo capitaneada por autoridades, em público. Matança no presídio em Manaus? Acidente, diz o presidente que gosta de bancar o amigo do idioma. E depois tenta ressignificar o que é um acidente.
Não tinha nenhum santo, afirma o governador. Nova matança em Roraima. É acerto de conta entre bandidos, diz o secretário nacional de Juventude do governo... daquele presidente acidental. "Não estão dando importância para as pessoas de bem", lamenta, num discurso tão batido quanto representativo da miopia de autoridades sobre o que significa segurança pública.
Quando tanta bobagem sai de bocas oficiais que não enxergam um palmo à frente do nariz, talvez seja sinal de que o debate geral esteja mesmo muito tosco. Mas não se pode culpar o governo Temer pelo pioneirismo em relegar a último plano a questão prisional, nem o governador do Amazonas, nem o secretário "de bem". A coisa é bem antiga, e desde que me conheço por gente ninguém quer falar muito sobre isso.
Se não me engano, foi o Luis Fernando Veríssimo que escreveu uma vez que o certo era haver prisão especial para todos. Assino embaixo.
Não há como manter qualquer pretensão de sociedade civilizada se a punição do Estado é planejada como a vendeta de um familiar de vítima. Do parente de quem foi alvo de um crime violento, é possível tolerar a ira feroz recheada de sede de vingança; do Estado, jamais.
Estado existe, entre outras coisas, para garantir que a razão se sobreponha à emoção, e não para jogar mais lenha na fogueira alimentada pelas velhas frases de efeito como "bandido bom é bandido morto".
Mas não é justamente a contrária mensagem que se passa a cada vez que algum "não tinha santo" é dito por alguém incumbido de uma função pública? Como eu disse lá atrás, ninguém quer falar muito disso, a não ser para dizer que preso tem de sofrer mesmo.
Ninguém quer se preocupar com preso, quando há tantas outras coisas para se lamentar neste Brasil, não é verdade? Gastar com bandido, estuprador, assassino? Diga-se de passagem, e só mesmo de passagem, que uma pequena parcela dos bandidos perigosos está presa. A maioria é traficante, enquanto homicídios e estupros, por quase via de regra, permanecem insolúveis.
Abandonemos, até, a questão, digamos, humana. Vamos a um raciocínio mais lógico, como é a moda desses tempos de PEC do Teto. Qual o sentido de gastar dinheiro, o seu e o meu, e muito dinheiro, aliás, para manter presídios tais quais existem hoje (barris de pólvora superlotados de pessoas em condições indigentes)? O que alguém espera disso, a não ser a produção de mais ódio, de mais crime, de mais Brasil nesse Brasil transbordado de Brasil?
Talvez, na falta de algo mais produtivo, a situação carcerária produza um efeito real. Quem sabe, com as condições das cadeias alardeadas, a célebre frase "bandido bom é bandido morto" não se transforme, para aplacar a ira generalizada de quem sabe que ali atrás das grades haverá mais sofrimento, em algo como "bandido bom é bandido na cadeia"?