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O ladrão e o pianista

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 27/01/2017-00:06:14 Atualizado em 27/01/2017-00:28:03

Agosto de 2005. Grazi Massafera, musa do BBB 5, estampa a capa da edição comemorativa de 30 anos da Playboy. E o André, o nosso André, quer a revista.
Parênteses pra você que não é leitor habitual desta coluna: André é o chefe de reportagem aqui do jornal, trabalhador incansável e autêntico bom rapaz, exemplo de educação e honestidade, filho que as mamães gostariam de ter e genro com quem as sogras adorariam dividir a mesa aos domingos. André é ainda um poço de popularidade, o cara de quem todo mundo quer ser amigo, que todos chamam pra tomar cerveja (embora ele quase não beba), e, curiosamente, dono de um perfil inverso ao que geralmente se desenha de sujeitos populares. Tímido, absurdamente tímido, é capaz de ruborizar e desviar os olhos ao receber um singelo elogio.
Se o André fosse tema de uma série, o nome seria algo na linha "Todo Mundo Adora o André". Mas voltemos a 2005.
O problema todo é que o André, o nosso pequeno André, tem 12 anos em agosto de 2005. E na igualmente pequena Rio das Pedras, cumpre-se a lei. Nada de Playboy para menores de 18. André não tem irmão mais velho. Entre ele e a revista, então, 64 meses.
André não quer esperar. Para ele, leis parecem entraves burocráticos à sua efervescência hormonal. André quer a Grazi, e quer agora. Ousado, promete aos colegas da escola: trago amanhã. O plano era simples, e o palco do crime, a padaria perto de sua casa - que também tinha uma banca de revistas. Eu disse crime? Crime.
André furtou a Playboy. O nosso André? Calma.
Minto, o plano não era tão simples. Foi ousado e extremamente detalhista. André, conhecido na área, pega a famosa revista Recreio, que ele verdadeiramente consumia na época, e esconde seu real objeto de desejo, a Playboy da Grazi, dentro dela.
Dirige-se ao caixa e pede à moça um sorvete. Ela se vira para apanhar o Tablito ou Chicabon no freezer horizontal, e André, que já se destacava na época pela agilidade, joga dentro da gaveta de dinheiro o valor exato, trocadinho, que correspondia ao preço da Playboy. Quando a moça se vira, o rapaz paga a Recreio e o sorvete e sai como se nada houvesse, cuidando para disfarçar a euforia interna causada pela revista e por sua audácia eficiente. Se o André não gozasse de tanta credibilidade aqui, ninguém acreditaria que ele fez o que fez. Não combina com ele, e jamais esperamos algo que fuja ao desenho que pintamos de uma pessoa. É como o Claudião.
Parênteses de novo: Claudião, nosso editor-chefe, é o típico quarentão quadradão "o mundo-tá-muito-chato-e-cheio-de-frescura", "que saudade da minha época", etc. É um indignado com a maldade e a corrupção humanas, embora sua revolta se espraie apenas pelo sofá de sua casa e aqui na redação. Claudião adora esporte. Ama tanto o futebol, mas tanto, que passa seu pouco tempo livre em meio a tabelas de Excel nas quais computa o resultado de clássicos dos anos 20, 30, 60, provavelmente com um novo projeto de livro sobre seu assunto predileto (já escreveu dois). Claudião tem tão pouco tempo livre que não escuta música - ao menos essa é sua justificativa. Minto: escuta no carro, em seus curtos trajetos, e até outro dia, ouvia apenas as quatro canções gravadas em seu pen drive de estimação ("Apesar de Você", "Pra não dizer que não falei das flores" e não sei quais mais). Mas Claudião jamais fala de música. Jamais. Em sua lista de interesses, está abaixo de curling.
O fato é que o Claudião quadradão, que não escuta música, que jamais fala de música, que adora Excel... esse Claudião toca piano. O Claudião toca piano. Era especialista na execução de "Für Elise" , do Beethoven. Mais: já participou de audição na adolescência, e foi aplaudido efusivamente, após um pequeno rompante de desespero, sob influência do qual se levantou e saiu correndo depois de errar uma nota - dissuadido pelo professor, voltou e repetiu a tarefa, desta vez com perfeição.
Claudião surpreendeu tanto com essa história que até hoje há quem não acredite. Assim como o André e sua Playboy. Esse episódio (do André, mesmo pagando) e esse talento ("Claudião, o pianista" soa tão surreal como "Felipe Melo, o jogador leal") não combinam com os personas que criamos - com a ajuda deles, é claro.
Assim como não vai combinar se um eleitor assumido de Bolsonaro disser que lê Sartre. A discussão no mundo hoje é assim: "é esse tipo de gente...(e aí complete a frase como quiser: "preconceituosa, bruta, chucra, etc.") que vota no Bolsonaro, apoia o Trump, que queima mendigo e odeia minorias, etc., etc."
Precisamos enquadrar. Mais ou menos como a amiga de um amigo meu enquadrava, de maneira mais singela, todo mundo de acordo com o carro: "Fulano, o do Corsa, vai à festa?"; "o Sicrano, o do Gol, casou?"; "Beltrano, o do Corolla, comprou uma casa". Esse amigo, que não tinha carro, provavelmente era classificado como "Fulano, o pedestre".
Caminhamos pra isso: "Sicrano, o que gosta do Bolsonaro". "Fulano, o que votou no PT". Assim como fizemos com Claudião, "o quadradão", e André, "o bom moço". E pior: acreditamos no que criamos. Ninguém quer descascar muito a superfície. Personas facilitam tudo.
E vamos continuar a nos surpreender com a descoberta de pianistas modestos e ousados ladrões honestos. Tomara que não nos surpreendamos também, em 2018, quando descobrirmos que não é só gente que queima mendigo que vota no Bolsonaro. Os democratas dos EUA demoraram um pouco para descobrir algo parecido.