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Jovem demais

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 12/01/2017-23:36:33 Atualizado em 13/01/2017-00:09:52

Hoje em dia, pessoas de 35 anos são ridiculamente jovens. Se Balzac fosse vivo, escreveria "A Mulher de 50 anos", talvez até a de "60 anos". Ninguém mais é um coroa na terceira ou quarta década de vida.
É forçoso reconhecer, mas até o meu chefe Claudião, o único cara mais velho que eu nesta redação, é bastante jovem ainda - embora seus hábitos vetustos denunciem o contrário -, e, aos 41, vive cheio de planos que envolvem muito mais que uma aposentadoria tranquila.
Há amigos, solteiros, que moram com os pais aos 40, 40 e poucos, e quase ninguém fala sobre o assunto. Quando eu era criança, se aos 35 o sujeito ainda fosse solteiro e morasse com os pais, era vagabundo crônico ou gay. Hoje em dia, quem se casa aos 35 pode até ouvir: "mas tão cedo?".
No meu tempo de garoto, as pessoas abandonavam os gibis e o videogame no máximo ao fim da adolescência. Depois disso, apenas jogavam com (ou liam para) os sobrinhos ou filhos vez ou outra - tudo bem, era o Atari. Hoje, não se sabe bem quando termina a adolescência e começa a vida adulta, e sujeitos mais velhos que eu lamentam ter de dividir o videogame com filhos, se houver filhos - tudo bem, é o X-Box.
Aliás, não muito tempo atrás, deixar para ter filhos depois dos 30 era estranho ("será que ele não dá no coro?"), perigoso ("as crianças vão nascer com problema") e raro. Hoje, ter filhos antes dos 30 é estranho ("pra que a pressa, não vão curtir a vida?"), perigoso ("duas crianças cuidando de outra criança") e raro.
Crescendo mais tarde, não se envelhece quase nunca. Em provas de 10km, corri ao lado de senhores de 60 e muitos, 70 anos. Conheci uma mulher que começou aos 60 e poucos, e aos 64 anos já fazia tempos que muitas meninas de 25, corredoras ativas, não obtinham. Em uma maratona que disputei (42km), julgo ter visto, ainda antes de perder minhas faculdades cognitivas, um sujeito com muito mais de 80.
Na década de 70, que foi ontem, morria-se aos 50 e poucos anos e ninguém achava um escândalo. Hoje, mesmo um adepto da autodestruição via sedentarismo-cigarro-cerveja-frituras-gorduras ultrapassa os 60 sem qualquer esforço.
Há pouco tempo, separar-se depois dos 60 era a morte. Hoje, há o Viagra. Separar-se, aliás, era tão raro que se tornava um acontecimento. Hoje, perguntam aos casados que celebram as bodas de madeira: "Qual é o segredo?" Neste grande parque de diversões que se tornou a vida projetada, afinal...casar-se e manter-se casado, ter muitos filhos, ficar velho...não soa como um obstáculo à celebração da juventude sem fim?
Sim, porque a vitalidade prolongada, duradoura, não é mais utopia. A ode à "juventude de espírito" é o próprio espírito da época.
Quando eu era criança, lembro que quem ia à academia tinha de pegar dois ônibus (os garotos, a maioria) ou gastar meio quarto de tanque de gasolina (tiozões de quase 30 anos ainda metidos a garotos). Eram tão poucas que desconfio que não tinham nome. Dizia-se apenas vou à academia, e ninguém ficava em dúvida sobre qual era. Ah, a academia.
Hoje, num raio de um quilômetro de qualquer lugar, há duas ou três academias pra jogar na cara de qualquer um a vergonha que é você não fazer exercício e não cultivar seu maior bem, sua saúde-juventude-de corpo-e-espírito - ainda mais quando você vê senhoras de 70 e poucos anos puxando ferro.
Ser idoso não é problema, o pecado é entregar-se à velhice, antes ou depois da hora. E que jeito mais modorrento de se tornar anoso do que parando de trabalhar? Aposentar-se aos 65? E vai fazer o quê? Afinal, precisa pagar academia, Viagra e pensão, as noitadas, os games...Trabalhar até os 80, então, parece justo. A vida tem de ser ativa, vivida, não dormida.
Nosso presidente, afinal, não tem 75 anos e lida com a tensão diária de comandar a nação?
Acontece que tudo isso é uma mentira. Quer dizer, não é uma mentira. É só meia verdade. A verdade toda é que a vida não é assim. Não pra todos. A verdade toda é que trabalhar não é necessariamente um prazer, um objetivo, um afago ao ego para quem passou décadas exposto ao sol, em trabalhos manuais, ou mesmo pra quem teve empregos apenas mais desinteressantes.
A verdade é que você não é o Mick Jagger. A verdade é que o nosso presidente se aposentou aos 55 anos. É verdade também que a Previdência está quebrada. Como resolver? Não sei o jeito certo. Só o errado. É comparar você ao Mick Jagger. Aliás, a verdade também é que o Mick Jagger já ganhou direito a aposentadoria - quando fez 65 anos.