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O inaceitável, só pra nós

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 09/12/2016-00:18:53 Atualizado em 09/12/2016-16:44:02

Legal e ilegal é bobagem. A coisa toda se divide entre o suportável e o inaceitável. É assim no futebol, no jornalismo, nos negócios, na sociedade em geral e, quem sabe, um dia será desta forma também na política. A margem legal, claro, não é a divisória entre o tolerável e o insuportável.
Fazer gol de mão e ficar quieto? A regra é clara, mas...acontece. Condenável? Só citar este exemplo alguns anos atrás já soaria ridículo. Falar em honestidade no esporte em que Maradona associou o jeitinho "extraoficial" à própria genialidade na Copa de 86, ainda mais com uma boa tirada depois ("a mão de Deus")? Santa ingenuidade. E que dizer da andadinha pra fora da área de Nilton Santos, que salvou o Brasil na Copa de 62? Inteligente (o elogio não é meu, mas do jogador espanhol que sofreu o pênalti, transformado pela agilidade do brasileiro e pela miopia do árbitro em falta fora da área).
Como os tempos vêm mudando até no futebol (quem lembra que outro dia o alemão Klose reconheceu ter feito um gol de mão que o árbitro não tinha visto?), hoje já dá pra questionar. Ainda assim, não chega, digamos, a ser uma atitude inaceitável. Intolerável mesmo é continuar a jogada com o jogador adversário caído (como qualquer hábito, o "fair play" condiciona nossos escrúpulos).
Ok, ok, vamos a situações mais cotidianas. Corrupção, a bola da vez. Todos sabemos que é ilegal sonegar impostos, mas toleramos quem paga um pouco menos do que deveria com manobras como prestar serviços sem emitir nota. Não digo endossar, apoiar, mas tolerar; toleramos.
Ou você saiu por aí denunciando todos os médicos que cobram menos de quem não exige o recibo do valor pago na consulta? Foi à delegacia ao descobrir que o vizinho inventa despesas médicas na declaração de Imposto de Renda para aumentar a restituição?
É ilegal, você condena, eu sei que é contra, mas não é insuportável ao ponto de não conseguir conviver com isso, ainda mais quando você lembra do discurso de tanta gente próxima que já disse "vou pagar pra roubarem?". Tem gente que faz muito pior, desvia recurso público de saúde, de educação...canalhas! Isso sim é inaceitável. Pronto, vida que segue. Um limite é tão bom.
O filho de um conhecido, drogado, coitado, cometeu um pequeno crime, um furto, vá lá, um roubo com arma de brinquedo? A princípio parece inaceitável, mas...você vê o linchamento moral e pensa: e os grandes canalhas deste País, que roubam da educação? Olhaí os políticos servindo de balisa de novo, demarcando o inaceitável.
E qual é então o pecado insuportável para os próprios políticos? Bom, sabemos que muitas das ilegalidades (caixa 2, desvio de verbas "desde que seja para a campanha", mensalinho, mensalão) passam longe do conceito de intolerável. Sempre há justificativas para enquadrar o ilegal numa prática à qual se é forçado pelo (olhaí ele de novo) hábito.
Ok, ok, então, digamos, um homicídio? Homicidas como seus pares, jamais (não combinaria com as mesuras todas do cenário político, certo)? Errado. Adivinhe por qual crime é investigado o homem que o presidente da República escolheu como seu líder de governo na Câmara? Tentativa de homicídio.
Mas sempre tem de haver um limite, ninguém vive sem isso, sem jogar para o outro lado o condenável, o insuportável, o intolerável, a parede que separa, afinal, os outros bandidos de nós, seguidores do hábito de nosso tempo.
Certamente, para os políticos, bichos pragmáticos, a noção de insuportável envolve alguma atitude não necessariamente condenável moralmente, mas que jogue contra eles próprios, que desafie o teatro dos poderes que representam. Algo como...descumprir decisões judiciais? Errado de novo, como nos deram prova Renan Calheiros e o Senado.
Os políticos não descobriram ainda seu limite. A coisa ficou pensa demais para o lado do aceitável. A caixa do insuportável, pouco usada, está oca.
Ah, esqueci. Há uma coisa medonha do "lado de lá": pedaladas.