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Prometo não prometer

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 29/12/2016-20:45:11 Atualizado em 29/12/2016-23:22:11

Ninguém é um Meursault. O protagonista do célebre romance "O Estrangeiro", de Albert Camus, que levava a vida sem qualquer objetivo, num passeio simplesmente sensorial pelos acontecimentos, só encontrou ansiedade ao ser preso por um homicídio banal e se ver, enfim, agarrado à cruel expectativa de seu julgamento. Só conheceu o frio na barriga com a possibilidade da própria morte.
Não, ninguém é assim. Vivemos o tempo todo de ficção - pode-se também chamar de planos. Criamos planos, traçamos metas e sonhamos acordados com a doce fantasia de sua realização, aqui e ali estorvada pela sensação de que vai dar tudo errado - ficção e mais ficção.
Por isso, vai acontecer de novo amanhã. Mesmo que você não seja disso, lá perto da meia-noite, cercado de gente vestida de branco com as tacinhas prontas pro tilintar, vai ter promessa.
Se eu e você não vivemos sem planos, não é justamente o fim de ano, essa ocasião que parece ter o poder de sacralizar as metas, que vai passar em branco. A época é propícia, toda sugestiva. Só de lembrar dos R$ 225 milhões da Mega da Virada já é possível passar um dia, para dizer o mínimo, em estado de aprazível ficção. Como ganhar na loteria não depende de vontade própria, é preciso um plano pessoal para cultivarmos ficções mais lógicas.
Algo sempre dá para buscar, de preferência aquela coisa possível de cumprir sem muita chance de fracasso, que só depende de você, e por isso mesmo com toda chance de fracasso.
Emagrecer, ir à academia, deixar de fumar, beber menos, ler mais...uma ficçãozinha fácil de arrumar para que não nos sintamos um peixe fora do grande oceano dos planos, projetos e expectativas que se configura como motor do mundo e das relações. Deixar de cumprir? Faz parte. Tanto é que muita gente retoma as mesmas promessas do ano anterior sem o menor constrangimento, com o adendo "agora vai".
O importante não é cumprir, mas ter planos, compartilhá-los.
Sou dos que fixam metas também, claro. Uma delas era - e por enquanto estou cumprindo - escrever mais. E quando penso nisso, lembro sempre de um texto de Ray Bradbury, no qual o autor de "Farenheit 451" dava o seguinte conselho: "Não pense. Pensar é o inimigo da criatividade. É auto-consciente, e qualquer coisa auto-consciente é ruim. Você não pode tentar fazer as coisas. Você simplesmente tem de fazer as coisas."
Em resumo, menos plano e mais ação. E por que é tão difícil?
Por que é que precisamos prometer, planejar, criar regras, detalhar as promessas (o Alonso aqui do jornal definiu ao menos três idas semanais à academia, e eu menti ali atrás, não prometi apenas "escrever mais", prometi escrever um livro obviamente não acabado), para então protelar, fingir que esquecemos, e, finalmente, descumprir? Por que é que nossa ficção sempre tem de ter a busca pela recompensa e o flerte com a culpa tão arraigados na narrativa?
Não sei a resposta, mas amanhã, lá perto da meia-noite, prometerei que não vou prometer mais nada.
Obviamente, não devo cumprir.