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O jornalismo acabou?

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 22/12/2016-23:19:27 Atualizado em 22/12/2016-23:20:35

Escolhi jornalismo meio como o Henry Chinaski, protagonista de "Misto Quente", o clássico romance de Bukowski. Prestes a se inscrever numa faculdade de segunda linha, ele pergunta a um amigo qual o curso mais fácil. O rapaz responde sem dúvidas:
- Jornalismo. Esses sujeitos especializados em jornalismo não fazem nada.
- Beleza, serei jornalista.
Claro que não fui só eu. Durante a faculdade, e principalmente depois, o que mais encontrei foram jornalistas adeptos da lei do mínimo esforço.
Pois agora a profissão, esta gloriosa profissão que já pôs comida no prato de muita gente que não fazia mais que o básico do básico, está em xeque. Pra quem ainda não percebeu, os jornais quase todos estão muito mais enxutos, demitiram em massa e cortaram custo de tudo que é jeito. A crise que tem devastado o Brasil fez os anúncios, principal fonte de receitas dos periódicos, ficarem quase tão raros quanto nota de R$ 1.
Não sei se foi só por causa disso, mas é fato que textos de relevância e qualidade discutíveis (eufemismo corporativista) se tornaram bem mais frequentes. Cada vez mais voltados para as "redes sociais" (esse grande ponto de interrogação), jornais transformaram as materinhas engraçadinhas-divertidas, o jornalismo fofolete de apuração e rigor quase nulos, em carro-chefe de suas páginas no Facebook, onde as curtidas se tornaram um termômetro da eficácia. Alguns transportaram, em partes, o mesmo espírito para as páginas impressas.
Outro dia vi uma matéria com o título "Teóricos da Conspiração acreditam que Bolt seja um Illuminati". O texto, claro, não apontava um só dos "teóricos". Talvez a conspiração fosse do autor. Nada vezes nada. Jornalismo-engraçadinho. Não foi o blog da esquina, mas um dos maiores jornais do Brasil.
Há um bordão, muito difundido nas redações, que atesta nada mais nada menos que a morte do ofício: "Acabou. O jornalismo acabou". Os mais otimistas ainda fazem a ressalva: "Tá acabando".
A repetição desta frase começou com os mais velhos, aqueles caras que trabalharam em editorias que somavam 30 pessoas, e a moda pegou até entre a molecada que é hoje maioria nas redações, onde o número 30 costuma equivaler apenas à idade do repórter mais velho.
Em paralelo, aquela impressão que a gente tinha de verdade, meio Henry Chinaski, mas fingia para todo mundo que era só uma piada interna (de que jornalismo é mais fácil de fazer do que muita coisa), parece que ganhou força entre o pessoal do outro lado, conhecido também como leitor. A sensação de que qualquer um pode ser jornalista se alastrou à mesma medida em que a polarização de ideias dividiu os jornais em "mídia golpista" e "iniciativas progressistas", num maniqueísmo tão infantil quanto comum. "Hoje em dia, com gravador e câmera no celular, não precisamos mais ficar reféns dos jornais golpistas. Qualquer um pode relatar a notícia", foi uma frase que se tornou mais frequente nos últimos dois anos. Este é o nada animador quadro dos jornais: menos dinheiro, consequentemente menos gente, e muito mais "concorrentes" que dão "informação" gratuita.
Eu queria ter uma palavra de alento. Algo na linha da repercussão de uma boa matéria compartilhada no (olhaí de novo o termômetro) Facebook.
"Gente, essa matéria é prova de que o jornalismo não morreu. Ele ainda respira por aparelhos".
Mas aí parei para dar uma olhada na Internet. "Foto de Zeca Pagodinho sem camisa e escolhendo carne no mercado viraliza".
Não é que o jornalismo tenha acabado. Boas reportagens, análises profundas, uma boa página dupla sempre terão público. Resta saber quem e quantos vão aceitar pagar o preço necessário por isso para que a "vida após a morte" seja garantida. Mas é uma pergunta que precisamos fazer, e da qual temos fugido. É isso ou perseguir o Zeca, torcendo para que tire a camisa, para depois vibrar com os likes.