OK
Close

Sexta, futebol e Gazeta

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 23/12/2016-22:11:27 Atualizado em 23/12/2016-23:03:55

Era sagrado. A sexta-feira era o melhor dia da semana. Melhor que sábado, melhor que domingo. Escola de manhã - até aí nada de tão feliz assim -, mas tarde reservada para começar a jogar bola logo depois do almoço (espera fazer a digestão, filho...), até quando não houvesse mais sol.
Mas as sextas-feiras não eram tão esperadas apenas por isso. Sexta era o dia em que um colega de escola, religiosamente, comprava A Gazeta Esportiva na banca. Os recreios e até algumas aulas chatas de sexta, com o devido cuidado para não ser flagrado, eram gastos devorando o mais importante diário esportivo que o Brasil já teve. Era final dos anos 80, início dos 90.
Mais velho, já na faculdade, parecia que faltava alguma coisa quando saía de casa, lá pelas 6h30, sem uma rápida leitura na Folha de S. Paulo, invariavelmente iniciada pelo caderno de esportes. Geralmente escutava o barulho da moto seguido pelo do jornal de encontro ao chão, e ainda dava tempo de ler as notícias sem perder o ônibus. Quando nada escutava, abria a porta de casa meio que já esperando que aquele filha da mãe do motoqueiro havia falhado na sua missão diária de me entregar o jornal logo cedo.
Lembrei disso quando, à caça de um tema para escrever nesta época de vacas magras no esporte, procurei em uma das minhas planilhas o que de relevante havia acontecido em uma véspera de Natal.
Félix, goleiro de 70, nasceu nesse dia. Tivemos um único clássico paulista até hoje neste dia 24, um Palmeiras 3 x 2 Corinthians, em 1922. Nada que valesse uma coluna inteira.
Até que me deparei com essa: 1928 - Circula pela primeira vez o suplemento A Gazeta - Edição Esportiva, um caderno semanal, tabloide, sempre às segundas, do jornal A Gazeta.
Em 1941, este suplemento passou a circular também aos sábados. Viraria um jornal independente e diário em 1947. O idealizador daquele suplemento, Cásper Líbero, não viveu para ver isso. Morreu quatro anos antes, em um acidente aéreo.
A Gazeta Esportiva não existe mais desde 20 de novembro de 2001, quando a Internet ainda não era o que é hoje.
O Lance!, fundado em 1997, não é nem sombra do que um dia se propôs a ser e até do que um dia até já conseguiu ser.
O Jornal da Tarde, que marcou época no esporte, não existe mais.
O Diário Popular, de caderno de esporte pesado, inteiro PB por muito tempo, também é peça de museu. Virou Diário de S. Paulo e seguiu com boa cobertura esportiva apenas até ser comprado por J. Hawilla.
O esporte quase nunca foi prioridade para a Folha de S.Paulo, exceção a épocas de grandes eventos como Copas e Olimpíadas.
Temos apenas uma grande revista esportiva, Placar, que fracassou nas mãos da Caras e volta agora para a Abril, que nunca a teve como integrante de sua linha de frente.
São outros hábitos e outras culturas. Mas custa a acreditar que um país tão grande, que tanta ama futebol, a despeito da concorrência da Internet e da crise, não consiga emplacar de fato uma publicação esportiva em papel, como fazem há tanto tempo grandes marcas como La Gazzetta dello Sport (desde 1896), Marca (1938), L'Equipe (1946), Guerin Sportivo (1912), Mundo Deportivo (1906), Kicker (1920) e A Bola (1945), apenas para citar alguns.
Enfim, não tenho mais A Gazeta Esportiva para ler às sextas.
A prática do futebol até voltou recentemente, logo pela manhã, mas apesar dos alongamentos e aquecimento, a coxa já fisgou na segunda semana e o tempo de estaleiro deve ser longo.
E hoje a gente torce, trabalhando em jornal, para que a sexta, com seu famigerado pescoção, acabe logo.
A sexta, sem dúvida, já foi um dia muito melhor do que é hoje.
Dica
Fica a dica aqui de três bons livros sobre a imprensa esportiva: "Os Donos do Espetáculo - histórias da imprensa esportiva do Brasil" (Terceiro Nome), "História do Lance! - Projeto e prática do jornalismo esportivo" (Alameda) e "O Esporte na Imprensa e a Imprensa Esportiva no Brasil" (7letras). E da tese de mestrado "Futebol em revista no Brasil: dos primeiros títulos à resistente Placar", de Celso Unzelte, que você encontra no casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2015/11/CELSO-DARIO-UNZELTE.pdf.