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Inversão de valores

Editorial

06/06/2016-23:51:51 Atualizado em 06/06/2016-23:55:00

Cuidado, não ostente seu dinheiro. Mulheres, não usem roupas curtas, isso atiça. Você não tem alarme na sua casa, nem câmeras de segurança? Não pode facilitar pra bandidagem, meu amigo.
Sabe o que todas essas frases têm em comum, além de serem repetidas à exaustão? Perpetuam uma odiosa inversão de valores que se solidifica tanto mais quando sustentada pelo discurso oficial.
A coleção de sentenças que até parecem, mas são piadas, foi brindada com mais uma pérola, proferida semana passada pelo major da PM José Aparecido dos Santos, responsável pela coordenação do esquema de segurança da Festa do Peão de Americana.
Eis a sugestão do major para evitar furtos no recinto. "Celular e carteira. Não é um local para a pessoa vir com esse tipo de equipamento e, se portar, tomar a devida cautela porque o pessoal furta mesmo. Se tiver oportunidade, o camarada vai levar."
Além de se propor a ditar costumes (quem disse que cabe ao major da PM definir que lugar é lugar para "vir com esse tipo de equipamento"?), o major protagoniza mais um episódio em que o discurso oficial se propõe a inverter valores, ao indicar que, grosso modo, a vida é mesmo assim, furtos acontecem e o "camarada vai levar".
Esse tipo de tese já serve de proteção antecipada caso a enxurrada de furtos se repita (ano passado, foram 30 boletins de ocorrência em apenas uma noite). E se os delitos acontecem sempre, que fazer a não ser alertar as vítimas para esse inevitável desfecho, não é mesmo? Que tal montar um novo esquema de segurança, para coibir esse tipo de crime com inteligência, e agir rapidamente quando for registrado?
Afinal, quem vai à festa paga, e caro (em tempo: o preço do ingresso aumentou), para estar lá. Claro que é quase impossível zerar o número de crimes em qualquer lugar, mas o mínimo que se espera dos responsáveis pela segurança (organização do evento e PM) é o comprometimento para atingir esse objetivo. E o que se denota de discursos como o do major é totalmente o inverso. Cuidem-se, senão vão te furtar mesmo, meus caros. Será, leitor, que um ladrão estaria tão motivado ao crime se achasse que a chance de ser pego é alta? Felizmente, está acabando a tolerância com essa inversão de valores quase que institucionalizada. É só observar a revolta crescente com o tratamento tão comumente dispensado a casos de estupro, nos quais a sugestão de que a vítima pode ser a culpada ou que poderia ter evitado o crime é, mais que comum, quase uma práxis entre autoridades e sociedade. O lamentável é que o poder público é quase sempre o último a perceber que sua inércia já não é mais aceita como normal. Deveria ser cristalina como água a noção de que conviver com crimes não é comum, e que ninguém tem de se acostumar a driblar criminosos sob o argumento de que o delito é inevitável.
Da mesma maneira, ninguém tem de se acostumar a ter uma polícia ineficaz ou instituições que não funcionam como deveriam. Infelizmente, esse tipo de postura oficial não se muda a não ser com muita pressão daqueles que ainda acham que o normal é não ser estuprada (independente da roupa ou da situação), não ser roubado, não ser assassinado e nem furtado porque foi com seu celular a uma festa.