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Bom senso passou longe

Editorial

02/05/2016-23:52:13 Atualizado em 02/05/2016-23:52:46

Diz uma máxima popular, à qual se recorre cada vez mais, que "bandido bom é bandido morto". Na esteira da intolerância, estimulada e personificada por personagens como o dublê de deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), tal discurso, embora oco, encontra guarida também à medida em que o Estado se revela cada vez mais incapaz de combater o crime.
Talvez por isso seja tão repetido ao ponto de, às vezes, passar despercebido. Às vezes. Em Americana, um guarda municipal que se denomina patrulheiro Evangelista, muito afeito às redes sociais, costuma publicar fotos de pessoas abordadas em suas rondas com dizeres, digamos, nada lisonjeiros. "Vagabundo" é praticamente a vírgula do patrulheiro ao referir-se aos "suspeitos" cujos rostos constrangidos ele exibe em seu perfil no Facebook como sinônimo de missão cumprida.
Detalhe: geralmente não há registro de que algum dos "vagabundos" tenha sido preso ou encontrado com algo de origem ilícita. Recentemente, o patrulheiro publicou a foto de um cidadão que pede dinheiro em troca dos truques que exibe no semáforo da Avenida De Cillos. Evangelista alertou os internautas que tomassem cuidado, pois o rapaz também fazia sumir "carteira, bolsa e celular". Entrevistado pela reportagem, o guarda reconheceu que o jovem não tem pendência alguma com a Justiça, e que já cumpriu pena por causa dos crimes pelos quais foi condenado. Sobre a postagem, disse que estava apenas prestando serviço à população.
A total falta de noção do que seja o serviço público é assustadora, principalmente quando parte de quem deveria pautar sua conduta na observância da lei. Imputar crime a alguém, como se sabe, é calúnia, e Evangelista chamou o rapaz de ladrão, apenas sem dizer este termo. Só por este caso específico, a Guarda já deveria ter agido com rigor, afinal, quem está publicando as postagens não é um qualquer, e sim um representante da corporação, que se apresenta como tal, devidamente fardado, em seu perfil na rede social.
Em vez disso, a Prefeitura de Americana disse que averiguações preliminares indicam que não há relação entre o que foi publicado no caso do mágico e a função exercida pelo patrulheiro, não cabendo punição disciplinar. A Gama, por sua vez, primeiro disse que não está analisando se a conduta foi ou não correta no caso do mágico, se infringiu ou não a legislação, "mas apenas se há ou não relação com a função de GCM, pois aparentemente ele agiu como cidadão comum". Em relação aos outros casos, convocou o patrulheiro a depor. Traduzindo, leitor: é bem provável que não façam nada. Um guarda municipal publica fotos de uma pessoa que reconhecidamente não deve nada à Justiça dizendo que ela faz sumir seu "celular, sua carteira, sua bolsa", e os chefes dão de ombros. O prefeito Omar Najar (PMDB)? Disse que isso é com a Gama e que se alguém se sentiu ofendido, busque a Justiça.
A questão, e aqui pedimos perdão, leitor, por precisar desenhar, não é se alguém fica ou não ofendido. Não é se o sujeito é ou não é vagabundo. É que um guarda municipal não deveria dizer que fulano ou sicrano é bandido, que rouba, que é vagabundo, por três simples motivos: 1) Ele não sabe, como já admitiu; 2) Suas palavras têm um peso diferenciado e podem causar graves problemas - alguém lembra que uma mulher foi linchada no Guarujá por causa de um boato nas redes sociais? Não é difícil crer que influência podem ter as palavras de um agente da lei se encontrarem ouvidos inflamados por ódio; e 3) De autoridades, mais do que das outras pessoas, espera-se bom senso. A postura da prefeitura certamente endossa a conduta do patrulheiro. Pelo jeito, foi o que entendeu Evangelista, que no fim de semana voltou à carga e condenou mais uma porção de pessoas abordadas ao rótulo da vagabundagem. E deu seu recado: quem ficar com "dozinha" dos vagabundos, leve-os pra casa.
E quem ficar com "dozinha" do contribuinte que paga o salário de um sujeito que recebe como guarda, mas que também atua como promotor e juiz no Facebook, o que faz? Em "O Processo", um dos romances mais consagrados do século 20, Franz Kafka narra a angustiante trajetória de um cidadão que precisa enveredar pelas entranhas do absurdo para tentar mostrar que sua indignação com a situação da qual é vítima (um processo cujo motivo é desconhecido) faz sentido. É a sensação que se tem depois de ver as respostas absurdas da prefeitura à conduta quase ficcional do patrulheiro.