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Vergonha na cara

Editorial

22/03/2016-00:23:04 Atualizado em 22/03/2016-00:29:12

Prezado leitor, esqueça o velho ditado de que política é como as nuvens, cada hora que você olha está de um jeito. Agora, mais se assemelha à timeline do Facebook. Ao ódio, tão comum na rede social, adicione uma boa dose de inconstância e incoerência, essas duas características que parecem indissociáveis da maioria de nossos políticos (a tentação de generalizar é grande, mas isso é sempre um risco).
Em Americana, o vereador Téo Feola (agora PV), defensor ferrenho do governo do cassado Diego De Nadai (PTB) e ex-crítico ácido do prefeito Omar Najar (PMDB), cuja administração já tachou de "Os Trapalhões", se filiou a um partido da base. Um novo trapalhão? Téo diz que nunca foi oposição declarada a Omar, que vota o que é bom para a cidade e todo aquele blábláblá que você conhece tão bem e que, se fosse verdade, leitor, seria melhor que nossos sonhos mais otimistas: nem base, nem oposição, vereadores votando de acordo com sua própria consciência e com o bom senso.
Não é, claro, verdade. Vereadores votam de acordo com a situação e com muitos interesses, alguns dos quais infelizmente não sabemos quais são. Segue a mesma toada o Capitão Crivelari, que anunciou o apoio do seu PR à eventual candidatura à reeleição do prefeito Omar Najar, que só faltou chamar Diego (se é que não chamou) de bandido com todas as letras. Crivelari era líder do governo Diego na Câmara. Ocupou secretarias. E agora é associado a um prefeito que diz que o seu governo, de Crivelari/Diego, quebrou Americana.
Omar sempre lembra que os vereadores tiveram papel decisivo para, como ele diz, afundar Americana, ao não fiscalizarem o governo Diego. Imagine em que conta ele tem, então, o líder do antigo governo, que agora é taca-lhe 15 de carteirinha?
O que é que Omar, que sempre fez questão de se mostrar um "não-político", deve achar de toda essa presepada tão política? Enquanto lhe convém, certamente está bom. Apoio não se escolhe, é o que dizem, afinal. As coisas são mesmo assim e vida que segue, até a próxima eleição.
Discurso é discurso, prática é prática, eleitor. Nesse momento de tensão e descrédito que domina o debate nacional sobre política, posturas rasteiras como a de Téo, Crivelari e Omar só pioram tudo. Exacerbam o senso comum de que político não vale nada. Por que será, afinal, que eles têm essa fama?
A profissionalização da política, ou melhor, a carreirização (porque profissionalização ainda implicaria fazer algo em alto nível, o que não costuma ser o caso, convenhamos) é um câncer nas relações institucionais do País. Para manter-se lá, para ter chance de vencer eleições, para continuar a acomodar a si e aos seus, ou seja, para manter empregos, vale quase (e esse quase é puro excesso de conservadorismo) tudo. Tais como maridos traídos, políticos parecem ser os últimos a perceber o anseio popular, que já não suporta mais esse tipo de jogatina com cargos públicos. Ou percebem, e não ligam, o que é pior ainda. O sistema tem muitas distorções, e precisa ser melhorado para brecar o apetite de muitos políticos gulosos.
Mas, leitor, não se descobriu ainda sistema que garanta a um político a qualidade mais indispensável ao bom funcionamento da sociedade: vergonha na cara.