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Falta noção

Editorial

22/02/2016-23:42:41 Atualizado em 22/02/2016-23:43:03

Uma das coisas mais revoltantes no poder público é perceber que a negligência assume de tal forma a condução das ações que o bom senso se assemelha, quando surge, a um visitante estranho e inconveniente.
O modo de gestão "piloto automático" é perceptível em muitas situações, e pôde ser observado mais uma vez em Americana no sábado, quando a reportagem flagrou, de novo, roçagem de mato sem tela de proteção, desta vez na Avenida Estados Unidos, no Parque das Nações. Em novembro, o garçom Mateus França de Souza morreu atingido por uma pedra durante trabalho de roçagem na cidade - naquela situação era um trator que fazia o serviço.
O TODODIA chama a atenção para o problema faz tempo, mas nunca ninguém deu muita bola. Após a morte, esperava-se um pouquinho, nem que fosse só um pouquinho mais mesmo, de responsabilidade.
Questionado por um jornalista do TODODIA sobre o trabalho sem tela, um dos encarregados do serviço, anteontem, disse primeiro que a tela acabara de ser retirada (o que não diminui em nada o risco), e depois respondeu que as pessoas têm de "ter noção" que estão trabalhando. É incrível que deseje aos outros o que lhe falta em sua totalidade. Observe, leitor, o disparate desse irresponsável questionado pela reportagem. Ele, funcionário público, acha que as pessoas têm de ter noção. Ou seja, entende que os outros têm de se precaver. Se é necessário precaução, é porque perigo há. E ele sabe.
Se há risco, porém, nenhum transeunte é obrigado a saber, afinal, não é possível a um leigo adivinhar. Já eles, os "especialistas", sabem do perigo, não o evitam, e culpam os leigos por se exporem. Se há um exemplo que ilustra bem a inversão de valores, é esse. O mínimo que se espera após o flagrante da reportagem é uma providência enérgica.
A assessoria de imprensa informou que o secretário de Obras, Adriano Camargo Neves, supervisionou os trabalhos. Se viu o serviço sendo feito de forma insegura e nada fez, merece ser demitido imediatamente. Se não sabe que era inseguro, merece ser demitido por incompetência.
Claro que a assessoria pode ter se enganado, como se enganou quando o garçom morreu, em novembro, e ela, assessoria, informou que a roçagem foi feita com tela de proteção, até ser desmentida pelo próprio motorista do trator.
A Artesp, agência reguladora dos transportes, trata esse tema com a mesma irresponsabilidade, quando questionada sobre o trabalho também executado sob risco nas rodovias.
Quantos será que vão ter de morrer até que o assunto seja digno de atenção? Talvez, infelizmente, muitos. Antes disso, oremos para que a noção desejada pelo servidor irresponsável se incorpore à personalidade dos gestores.