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Você paga

Editorial

16/02/2016-23:39:01 Atualizado em 16/02/2016-23:45:54

Prezado leitor, você já deve ter ouvido falar em financiamento público de campanha. Só não sabe que ele já existe. Às vezes, políticos falam honestamente. Anteontem, o presidente da Câmara de Hortolândia, Gervásio Batista Pozza (PT), protagonizou um desses raros discursos tragicômicos, ao dizer que o subsídio atual de um vereador, R$ 11,2 mil, não dá para "manter o mandato".
Por manter o mandato, leitor, leia-se trabalhar por sua reeleição. É nisso que pensa, a maior parte do tempo, a maior parte dos vereadores. É nisso que empregam seu tempo, razoavelmente bem remunerado pelo seu dinheiro, o dinheiro público. Manter o escritório no bairro, andar para cá e para lá, ser atuante, como lembrou o vereador, é parte da missão de manter o mandato com vistas à próxima eleição. Não por acaso, vereadores se perpetuam nos cargos, aproveitando essa aberração que é a possibilidade infinita de reeleição.
Um dos motivos de Câmaras estarem tão longe do cidadão comum, e de terem imagem tão péssima, é o abismo entre seus costumes e os costumes do resto da população, entre seu cotidiano, e o dia a dia do cidadão comum. Um dos sintomas desse abismo é o salário, que nos Legislativos ganha o pomposo nome de subsídio.
Qual a média de salário na cidade de Hortolândia? Certamente, longe dos R$ 11,2 mil. Vereadores, enquanto representantes da população, não deviam destacar-se tanto da média dela.
Permitir a criação de seres "especiais" é, certamente, um dos grandes absurdos perpetrados pelo sistema legal brasileiro, seja em Legislativos, Executivos e, muito corriqueiramente, pasmem, no Judiciário, com vencimentos exorbitantes que volta e meia ultrapassam o teto constitucional, com a velha desculpa de benefícios legais.
Falar de maneira genérica, porém, parece diminuir o peso que a escolha pessoal de cada político tem para a manutenção desse perverso status quo. Pode dar a impressão de que o sistema, sempre esse vilão, é mesmo assim, e perpetua esses absurdos numa proporção em que, sozinhos, os políticos nada tem a fazer a não ser dar de ombros e jogar o jogo, sob pena de morte. Errado. Esse sistema é alimentado por homens. Mais precisamente, pela ganância e ambição de homens que enxergam na política um trampolim para a construção de sua "história vencedora", quando não para encher seus bolsos - muitos desses não teriam competência para desenvolver trajetória tão "exitosa" na iniciativa privada, mas aqui, no poder público, a competência é medida de outra forma, leitor.
Cada Gervásio que diz que não dá para "manter o mandato" com um salário de R$ 11,2 mil é culpado pelo Leviatã que se tornou o Estado brasileiro.
Culpado por transformar seus mandatos numa extensão de seus interesses eleitorais e de usar, sem cerimônia, o dinheiro público para isso, transformando, assim, as casas Legislativas em qualquer coisa, menos na casa do povo.
Na casa do povo, com certeza, vive-se bem com R$ 11,2 mil.