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A reorganização

Editorial

09/12/2015-00:42:29 Atualizado em 09/12/2015-00:40:36

Antes tarde do que nunca. O ditado popular cai como uma luva para a tardia, porém indispensável, medida adotada pelo governo do Estado de suspender o fechamento de escolas e discutir o projeto no ano que vem com as comunidades.
O argumento do Estado para defender a reorganização escolar - projeto que consiste no fechamento de 93 escolas em todo Estado, e no reagrupamento em unidades com alunos de faixas etárias semelhantes - faz sentido. Além da questão educacional, certamente haveria economia. Talvez o projeto não seja ruim. A questão, porém, não é essa.
O problema é tratar uma mudança gigantesca, que muda tanto o cotidiano de tanta gente, no afogadilho. Não houve debate. Depois de um curto período de suspense sobre quais escolas iriam fechar, pais, professores e alunos souberam praticamente ao mesmo tempo que a imprensa do fechamento. A péssima comunicação do governo revela, porém, muito mais do que falha técnica ou de estratégia. É sintoma de um hábito tão arraigado no poder público quanto nocivo à democracia: impor sem discutir. A ideia de que o eleito teve delegado a si um mandato para resolver como achar melhor qualquer assunto é tão comum entre prefeitos, governadores e presidentes que se tornou um vício causador de muitos males.
Basta dizer que até entre empresas, que não devem satisfação sobre seu modo de gestão, essa cultura já começa a ser coisa do passado para entender que não há mais, no poder público, espaço para esse tipo de postura. Dialogar com a sociedade, principalmente em temas tão delicados, não é só desejável, mas sim imprescindível para um regular exercício do poder.
Ainda mais quando se fala em educação. Que ambiente, senão a escola, é o mais adequado para a disseminação do debate, o estímulo à reflexão, à dúvida, à busca do consenso e do conhecimento? Por isso é que é especialmente nefasto, justamente ali, nas escolas, impor qualquer coisa sem diálogo.
Agora que o fechamento de escolas está suspenso, o governo precisa acertar inicialmente seus ponteiros internamente para começar o processo de convencimento da sociedade. Se a medida é boa, há de se mostrar isso com números detalhados, depoimentos de especialistas e abertura ao contraditório - o básico que deveria ter sido feito desde o começo.
É importante também que o outro lado - os estudantes - entenda a importante vitória que obteve, e dialogue sem preconceitos sobre a medida.
Os alunos conseguiram, durante o processo de ocupação das unidades de ensino, atrair a opinião pública para o seu lado, até porque é difícil ficar contra jovens que lutam para que suas escolas não sejam fechadas - ainda mais quando alguns deles estão levando mata-leões de policiais duas vezes maiores. Oxalá, porém, esse crédito obtido com louvor não seja gasto em uma postura intransigente com a proposta do governo. Enfim, agora, que o diálogo vença.